um documento | a document
.
Macieira, 27 de julho de 2025
A lenda de São Macário
Ninguém parece saber exatamente os pormenores da lenda de São Macário. E é isto que dá a esta residência um encanto particular: estamos no domínio da religião prática, vivida, e não da que é institucionalizada nos livros. Tanto os relatos escritos como os orais apresentam variações consideráveis. Mais do que uma narrativa linear, as pessoas tendem a mencionar alguns episódios isolados. Quando me dirijo a determinada pessoa e peço para me contarem a lenda, nunca encontro a mesma versão. É frequente, a meio do relato, haver troca de perspectivas sobre a lenda, e os pormenores são discutidos com entusiasmo. Há duas narrativas predominantes. Na primeira, São Macário era um habitante da região, almocreve para alguns, pastor para outros. Um dia, teria ido caçar com o pai para os montes, e por uma distração, deu um tiro fatal que mataria o pai. Cheio de culpa, isola-se na Serra da Arada, onde vive como um eremita até ao fim dos seus dias. Uma das ermidas onde hoje se presta culto, a capela de baixo, construída em cima de um túnel de rocha, seria o espaço onde teria vivido. A segunda versão, mais difundida entre as pessoas com quem falei, é ainda mais trágica. Um dia, São Macário sai de casa para trabalhar. Entretanto, os seus pais chegam à sua casa e, segundo uma das versões, encontram-se encharcados pela chuva, pelo que a esposa de São Macário os aconselha a deitarem-se no quarto para se aquecerem. Noutra versão da narrativa, é a mãe quem se sente indisposta e, por isso, a esposa de São Macário cede-lhes o quarto para que possam repousar. Quando São Macário regressa a casa e vê dois corpos deitados na sua cama, julga tratar-se da sua esposa com um amante e decide matá-los a tiro. Quando percebe que são os seus pais, vive um sofrimento atroz e isola-se na montanha, tornando-se eremita. Conta-se também outro episódio, por vezes encaixado nas narrativas anteriores, por vezes sem qualquer ligação. São Macário, vivendo na montanha, descia à Macieira para buscar brasas, que levava na mão sem se queimar (porque já era Santo??). Um dia cruza-se com uma pastora e não resiste a olhar para suas pernas. Nesse instante, queima as suas mãos. Independentemente das versões, penso que há uma moral católica subjacente nesta lenda: os pecados cometidos por São Macário desembocam sempre numa vida de isolamento auto-imposto, de martírio e sacrifício. A vida de São Macário é, independente das versões, sempre dividida entre um antes e um depois: há uma vida normal, um evento fraturante (o pecado) e a instauração de uma vida nova. A partir daí, é sempre concebido como um eremita, uma criatura que habita a montanha, ao lado das outras entidades não humanas. Algumas versões das pessoas com quem falei enaltecem esta dimensão ascética, ao descreverem São Macário como um homem boémio, um malandro, que precisou de um acontecimento marcante para mudar radicalmente a sua forma de ser. Ao contrário da maioria dos santos, não há, segundo me disseram, qualquer prova real da sua existência. Nenhum documento, nenhum arquivo, nenhum vestígio, nada que apresente qualquer indício da existência real deste homem. O culto terá sido iniciado no século XVIII, o que o faz relativamente recente. Estou curiosa com o desenrolar dos festejos.






